Sem identidade

Perambulando pelas ruas

Entre vislumbres

Do que ainda será

E do que já não é mais

Concentrando-se apenas no presente

Sem as amarras de ter que saber quem é

Devaneios do ego se dissipam

Como isótopos de urânio em Hiroxima

Entre o pavor e o espanto

Do que já não se sustenta

E precisa perder seu lugar

A libélula em seu casulo

O líquido amniótico que se derrama

Buda iluminado, Cristo crucificado

Pulmões que se enchem de ar pela primeira vez.

O VERDADEIRO CRISTIANISMO

O atentado com motivações religiosas à sede da produtora Porta dos Fundos, ocorrido na última véspera de natal, suscitou uma série de artigos, vídeos e textões de redes sociais tentando explicar que não se tratava de uma atitude de um verdadeiro cristão, uma vez que Cristo pregava o amor, e não violência. E daí vinha uma explicação do que o cristianismo realmente quer dizer, e quem age de maneira contrária não é verdadeiramente um religioso.

É relativamente comum esse tipo de discurso, tratando como exceção qualquer ato contraditório entre a pureza do modelo no mundo das ideias e o que a experiencia real traduz em atos. Assim, o stalinismo não é o verdadeiro comunismo, o colonialismo não tem nada a ver com o capitalismo, ou a escravidão do povo negro não é responsabilidade do Ocidente porque já existia na África. No lugar de entender e absolver as contradições existentes em qualquer experiência humana, é mais fácil negá-las, evitando assim qualquer reflexão mais profunda que cause alguma inconveniência a quem discursa.

No caso do cristianismo, desde Constantino que essa religião é utilizada para justificar todo tipo de violência e perseguição. As Cruzadas, o genocídio dos povos originários da América, até mesmo a escravidão, tudo isso era sempre justificado em alguma passagem da Bíblia.

Se Cristo pregava o amor, também se utilizava da violência, como o episódio dos vendilhões do templo bem demostra. Desta forma, todo tipo de discurso pode ser extraído dos textos bíblicos. O colérico Deus punitivista do Velho Testamento e o Jesus Cristo Super Star, paz e amor, do Novo Testamento. A Inquisição e a Teologia da Libertação. A abnegação franciscana e a Teologia da Prosperidade.

Como bem explica Slavoj Zizek, “Quando todos os lados se reconhecem no mesmo produto, pode se ter certeza de que o produto em questão está operando como ideologia em seu estado mais puro, isto é, como um recipiente vazio contendo elementos antagônicos”. Desta forma, um texto sagrado sempre poderá ser utilizado como justificativa ideológica de qualquer ato político.

É por isso que é um erro querer dar lição sobre o que é ou não uma atitude cristã. A atitude cristã será tudo aquilo que a ideologia de quem pratica o ato disser que é cristão. E no caso específico do atentado, trata-se de uma ideologia adequada aos tempos de exceção em que vivemos, onde o poder religioso e o político cada vez mais se confundem e pretendem impor sua moralidade e visão de mundo a toda a população, ainda que na base da violência.

Se este não é o verdadeiro cristianismo, que alguém então aponte em que momento da História esse tal verdadeiro cristianismo realmente existiu.

A Imagem e a Coisa

“La trahison des images”, René Magritte, 1929.

A imagem visa a desaparição da imagem e, mais do que isso, não é senão o rastro deixado pela desaparição da imagem.

Onde a imagem desaparece? No inimaginável. O que não pode ser revestido em imagens e, no entanto, por isso mesmo, toda imagem é uma tentativa frustrada de revestir.

A coisa mais importante a se saber sobre a coisa é que a coisa não existe. A coisa é a ilusão que nasce da reificação da imagem. É quando o objeto da percepção toma ares de objeto concreto.

O inimaginável não é uma coisa. O inimaginável é a ausência de todas as coisas, como tais.

Se as coisas não existem no inimaginável enquanto coisas, de que outra forma elas poderiam existir?

Como imagem.

A coisa é a causa, até a etimologia garante. Mas causa do quê? Causa da crença na coisa.

A crença na coisa, acreditar que existe um objeto por trás ou por sob a imagem, é a prova mesma de que não há objeto por sob ou por trás da imagem. A evidência de que não há coisa é a necessidade de se acreditar na coisa para que a coisa venha a existir.

A existência da coisa é sempre uma simulação. Toda imagem é um simulacro da coisa.

Não existe coisa alguma que não seja um simulacro. Imaginal que seja, ainda assim simulacro.

A imagem é o cadáver da coisa, mas de uma coisa que nunca esteve viva, de uma coisa que foi desde sempre cadáver – e o cadáver, o álibi que nos faz supor que algum dia houve um corpo sob a imagem.

(Isso vale, sublinhemos, também para a auto-imagem que temos. Para a auto-imagem que somos.)

Cartas à Remetente (excerto de “Voltas do Imbigo”)

Mystery and Melancholy of a Street by Giorgio de Chirico 1914

Nova Friburgo, 9 de setembro de 1969

Caro Pedro,

não, o senhor não devia ter me escrito. Mas Romero também não devia ter-lhe dado meu endereço. Uma surpresa saber que o senhor é daqui. Mas esqueça esse seu “também”, que não sou friburguense.

Carlito, o amigo de seu pai, você já deve ter visto, morreu. Aqui ainda conserva-se hábitos do interior: no enterro de Aristão o comércio ia fechando as portas conforme o cortejo passava, coisa bonita de ver. Se estivesse na TV ia parecer cena de As Professorinhas ou Sangue e Areia. Espero que o senhor não seja um desses arrogantes intelectuais que não veem novelas, mas como é um friburguense, pode ser que seja mesmo.

Estou ralhando contigo, Pedro. Adorei o seu livro (aliás, obrigada pela dedicatória), tanto que ele me inspirou a escrever uma história. Ela é tão curta que eu poderia resumi-la em algumas linhas – a razão para resumi-la e não enviá-la é porque a única cópia foi enviada para Romero. E a razão porque não falo mais sobre o seu livro é porque me sinto um tanto ridícula tentando falar ao autor sobre o que ele escreve, vou acabar me passando por idiota, querendo encontrar um sentindo [sic] onde não tem nada mais do que palavras, ação, desenvolvimento da história no lugar de uma mensagem cifrada.

A minha história, por exemplo, você acredita que a história de um homem solitário que entra em contato com a própria casa… Você acredita que uma história assim quer dizer algo mais do que isso?

O isso é um homem disquitado [sic] preso a relação que não acabou, vivendo na casa que dividia com a mulher e que ele não tinha conseguido pôde abandonar da mesma maneira que ela o deixou (a mulher não deixa o lar, é expulsa), e por isso ele comta [sic] os dias, literalmente, desde a separação, acreditando que chegará o dia em que a mulher voltará pra casa, afinal ainda não tinham rompido os cinco anos. Tudo que ele faz, cada passo, até a barba por fazer, tudo acontece pensando nela. Até os livros que compra, a disposição dos mesmos em prateleiras, criado-mudo, mesa de centro, tudo é pensando nela… Menos arrumar a casa, isso ele não é capaz de fazer, mesmo sabendo que a agradaria. Sabe que não seria o bastante. Não há vassoura, pano ou rodo que dê jeito na sujeira que ele tem espalhado e agora não sabe como recolher.

Ele, é claro, busca conhecer pessoas novas, mulheres que ficam incomodadas de ir a sua casa e descobrir fotos de um casamento fracassado expostas como que em um oratório altar. Isso assusta as moças, então ele tenta uma nova abordagem. Não, ele não arruma a casa, ele não esconde as fotos… Ele não é capaz nem de colocar fogo numa calcinha esquecida que ele encontrou em sua gaveta de cuecas (a calcinha da primeira vez em que eles estiveram juntos) ou de rasgar as próprias cartas de amor que ele escrevera e a mulher deixou para trás quando se separaram. Um dia, buscando ser agradável (algo cada vez mais raro pra ele), estende a uma amiga um livro que acha que a fará feliz. Meses depois, triste, se dá conta de que está vivendo de acordo com a primeira lei de Kepler, em órbita elíptica em relação ao passado… Não exatamente ao passado, a uma pessoa.

Mais ou menos nessa época, ele descobre que o livro que deu para a amiga era, na verdade, um presente de sua ex, comemorando seu primeiro ano juntos, contendo uma longa carta em que fala, entre outras coisas, da vida sexual deles. A amiga liga, rindo, contando sobre isso. Ele se desculpa, ela diz que está tudo bem.

Mas ele quer o livro de volta. Porque ela vai voltar, ele ainda acredita nisso. E quando ela voltar, como ele fará para explicar que se desfez de algo tão pessoal, tão bonito… e ítinimo [sic] dos dois. Ele encontra uma cópia de Bestiario, um dos últimos presentes de Natal, uma bonita dedicatória de página inteira na folha de rosto, semelhante a recebida no Ulisses alguns anos antes. Relendo Carta a una señorita em Paris, ele se dá conta de que é a história de um divórcio e se põe a vomitar coelhos. Não literalmente, claro.

Ele começa a buscar pelos sinais dela nos livros, dedicatórias, bilhetes, entradas de cinema, anotações nas margens… Me esqueci de dizer que ele é bigodudo. Pois é, bigodudo do tipo que apara o bigode nos dentes, coça o cu e arrota alto na frente de todo mundo. Esse tipo de bigodudo! Mas o que isso tem a ver, não é?

O que importa é que ele começa a caçar a presença dela por tudo da casa, vê só o que ele encontra: numa reprodução de Francisco Rebolo, uma porteirinha entre árvores de diferentes tipos, uma cerquinha e tal, ele não encontra um homenzinho com a coisa de fora pintado com caneta Bic? Ela tava por todo lugar, do fundo queimado da frigideira até a roupa dele, que começava tendo o cheirinho dela e aí, de repente, não ia tendo mais.

Louças na pia, lixo no chão, tudo se empilhando. Ele não morre, mas é como se fosse. A última coisa que sabemos dele é que foi levado para um manicômio desses que tem Napoleões e Policarpos, dizem que seu corpo está branco de falta de sol, a consciência indo e vindo, convencido de que ela vai voltar. Diz que está possuído pela casa, pelas pequenas armadilhas que a esposa fizera… O que ele está mesmo é apegado, incapaz de entender gestos de carinho momentâneos que logo deram lugar a desejos que ele não era capaz de atender. O senhor entende o que estou querendo dizer? Não sei se Romero entendeu a história. Mas eu gostei muito do seu livro. A folha está acabando, fiquei em ж

Nova Friburgo, 5 de novembro de 1969

Caro Pedro,

me perdoe escrever assim, de chofre. Mas você soube que isolaram o vírus da leucemia? Acabei de ler no Globo. Fico imaginando o que é que não se fala lá nem no jornal de ontem… Desculpe começar assim, tão afoita.

Fiquei muito honrada com sua resposta e seu comentário. Posso não ter estudos, mas tenho ouvido atento e uma boa leitura. Era elogiada na escola pela minha redação. E D. é muito bom pra mim, entende minha vontade de aprender e escrever e, de certa forma, colaborar para algo melhor, mas elae não precisa se desgastar mais do que já nos desgastamos aqui com nosso pequeno “auberge”; por isso é que, assim como já expliquei a Romero, peço que não entre em contato, pois mesmo que nosso diálogo seja esse, sobre a criação, prefiro o silêncio aos ruídos que a comunicação exacerbada pode gerar. Assim, peço perdão pela rudeza, mas apesar de ter quase certeza de que serei eu quem recolherei (assim como tenho de que sou eu que vou enviar) as cartas da caixa de correio, não gosto de passar por situações.

Então, deixe que eu entre em contato. O que me faz pensar numa história nova que estou escrevendo. E se o senhor também se o senhor gostou da anterior?

Porque tenho outras, entende? Mas como não mandei mais que um resumo apressado, sinto que tenho medo de ser julgada pelo que realmente sou: escritora medíocre, dona de casa querendo brincar entre as crianças grandes… Todas essas coisas que nos atingem. Principalmente a mocinha da minha história, mandada para morar com tias na Guanabara, vai estudar na ECO, aquela inaugurada no ano passado pelo Danton, o outro Jobim. Vai aí um nome, não é?

O conto começa com as tias saindo em viagem para visitar parentes no Sul, algo assim (nem parece que fui eu que escrevi a história), a moça fica sozinha (as tias insistem em dizer que confiam nela) e coisas comuns começam a acontecer. Ela não está sendo assombrada, nada disso, ela só descobre depois de um tempo que está sendo narrada!!! Ela crê que alguém está contando a história dela – mas essa é a virada da história, caramba. Me adiantei.

Mas ainda não contei quem narra, então ainda tem chance da história funcionar pro senhor, não é mesmo? A história fala sobre como ela lida com o tempo que passa sozinha, as horas que leva para chegar no apartamento, o silêncio que a permite andar nua, queimar panelas e acender cigarros de maconha fedorentos, meio perdida com o fim do horário de verão e com o coração partido. Ela não sabe exatamente quando, mas começa a ouvir uma voz, que a princípio ela mesma repete de forma incoerente, brincando que está contando a própria história. Mas logo ela percebe que se trata de outra coisa, é a casa que a narra – e é só isso que vemos, o que ela vive do lado de fora só podemos suspeitar se era narrada ou não.

Tenho medo de não estar me fazendo clara o suficiente para o senhor. A casa a vigiava, Pedro. Estava obcecada por ela, moldava sua visão de casa para vê-la por todos os ângulos. Como não podia tocá-la (não mais que o piso toca uma cadeira sobre ele), a casa estava obcecada, registrando cada canto dela, cada—–

O senhor me desculpe. Termino essa carta (e a história) outro bat-dia, em outro bat-canal, agora tenho coisas para fazer.

Um abraço cordial,

– Dalva

Nova Friburgo, 6 de novembro de 1969

Romero,

Preciso da sua ajuda. Cometi um grande erro. Enviei uma carta para P.C. sem que isso me fosse pedido. E acontece que enviei a carta pra ele ontem mesmo. Viu o jornal? Da mesma forma como acham que todo barbudo é um vagabundo, qualquer um que pense é um radical. No futebol e na vida. Você tá me entendendo, Romero? Tinha um garoto na escola que era apaixonado por mim e eu não queria nada com ele. Na roça, entende? Ele ficava sempre me esperando passar, sabia onde eu ia passar… E eu estava contando uma história pra P.C…. D. está desconfiada. E a história é sobre uma mulher desconfiada. Acha que é vigiada pela própria casa apertamento [sic], paredes não tem só ouvidos, mas olhos e boca também. E conhecia maneiras de punir. Não tenho tempo de contar o resto da história agora. Porque ainda não a escrevi. Eu preciso que você dê um jeito nisso, Romero. Dar um jeito nas coisas pra garantir que eu possa continuar escrevendo. As coisas são duras aqui. Eu me sinto como se estivesse na minha própria história, vigiada pela casa como era pelo garoto na minha infância, sempre convenientemente posicionado em esquinas… Se você fosse lá na casa dele, dava pra pegar a minha carta e saber o que acontece na história. Mas que ideia boba, entende? Um dia desses eu vou terminar de escrever a história. E vamos saber o que acontece com ela, se continua sendo vigiada pelo apartamento, se pira e começa a fazer buracos pra todo lado atrás da origem daquelas vozes… Ainda bem que você me entende, Romero.

Nova Friburgo, 13 de dezembro de 1969

Romero,

um ano, hein?

Um ano que escrevi aquela minha história do idiota devorado pela casa e pelo fantasma de uma paixão e nem uma palavra, parece até que publicaram por pena. E agora a gente demora tanto pra se responder que as coisas nem fazem mais sentido. Mas tem uma ordem aí. É só procurar, entende? P.C. tá com A.I., não entendo se se conheciam antes ou o quê. Acho legal essas amizades. D. nem tanto assim. Tá todo mundo passando por isso (a vida, entende?) junto e parece que ninguém liga… Aí, Romero, é quando a gente dá aquela bufada, bate pé, esperneia igual criança, quando a gente percebe a brincadeira sem graça que é essa espera, esse medo de uma crítica ruim, entende? Porque uma crítica ruim acaba matando a gente.

De qualquer forma, isso tudo é pra dizer que terminei a história. Como o senhor me disse que conseguiu ler o restante – ou era só o meio? – que estava lá com nosso amigo (ainda bem!), vou te poupar de ler o começo porque, como disse, sinto que tudo que tenho escrito está passável e nada mais. Então, aí vai o restante da história pra qual, juro, dei o melhor de mim:

***

Entre faculdade e trabalho*, ela se aproximara de uma colega de curso e, como as tias não estavam e era bem vinda na casa da amiga, Alice quase não dormia mais no apartamento. E aquela vozinha insistente na mente dela, aquela que descrevia seu cotidiano solitário dentro do apartamento, quase não dava mais as caras.

Ela estava em paz, se divertindo sem se submeter ao escrutínio enxerido, nem tanto das tias, mas do espaço… Que cada vez mais, ela sentia estar tomado por algum tipo de consciência. Não era uma assombração, de fato estava mais para uma espécie de ausência carregada, um peso sem matéria, algo que Alice não sabia como explicar, mas tinha certeza de que que estava ali, imiscuído na solidão do apartamento, escondido no longo arco de sombra que a bancada formava quando se acendia a luz da sala, recolhido àquele canto inacessível atrás do armário, onde moedas, prendedores de cabelo e um garfo foram parar, perdidos até que se houvesse ânimo para recuperá-los.

Começou a ter tanto medo do apartamento, que só ia lá buscar roupas e, mesmo assim, acompanhada da amiga. Um dia, no entanto, levou um namoradinho. Com medo de que as tias, ou até mesmo os pais, chegassem de repente, Alice fez com que o rapaz esperasse na sala, o mais bem comportado que jovens amantes conseguem ficar, enquanto pegava roupas, trocava o lixo da cozinha e conferia a correspondência. Ao voltar a sala, encontrou o rapaz nervoso, convencido de que tinha ouvido passos além dos dela, uma porta sendo batida e até o lustre balançando – ele disse que não sabia como, mas tinha certeza de que o espelho do banheiro tinha uma mensagem pra ele.

O apartamento estava com ciúmes. A noção era ridícula, mas é óbvio que tinha algo de errado acontecendo. E assim, pensando que não poderia existir outra solução e que, assim que as tias voltassem, ela teria de voltar a dormir todo dia no apartamento, ela resolveu encarar a situação como podia: sozinha.

Alice estava decidida a não usar o banheiro, se mover o mínimo possível e, como se sentia constantemente vigiada, não tirar a roupa de maneira nenhuma. Com as luzes apagadas era menos perigoso, ela pensou. De fato, no meio da madrugada, com o silêncio e a escuridão, veio a paz, levemente rompida por um vizinho ouvindo Clarice, do Caetano, baixinho na vitrola. Alice perguntou-se o quanto ela própria era inocência, o quanto era lenda. No final, seria o apartamento, vigia apaixonado, espião edulcorado, seu único amigo? O único amante a que teria direito?

Ela esperava que não. Permaneceu no adeus chorando e nua, anunciava o Veloso tão lindo, magrinho e cabeludo com aqueles cachinhos de anjo – Alice tinha uma foto dele junto da Gal, os dois como irmãos cobertos por plumas brancas, que ela recortara de uma revista e colara na parte interna do guarda-roupa. A foto estava lá, ela sabia que bastava acender a luz, caminhar até o quarto e abrir a porta para ver os pares de olhos lhe olhando doce, entre fotos e nomes, os olhos cheios de cores, o peito cheio de amores vãos, por que não? Mas como se mover sem ouvir aquele cochicho sinistro vindo do linóleo antigo e riscado por outros pés que não o dela?

Alice pergunta-se se a loucura já a tomou, se há ainda algum espaço dentro dela onde reside um pingo de sanidade, onde não se imagine sendo observada a todo tempo, onde sua sombra não desgrudará de seus pés para além dos saltos… Ela suspira o suspiro dos aflitos, ouvindo o apartamento narrar-lhe sem timidez, descrevendo os arcos costais subindo e baixando enquanto está deitada no chão, sentindo a respiração que vai além dos pulmões e do próprio corpo, agora parte mesmo do piso, da parede quando ela se encosta tentando ficar de pé… incerta do que virá com o dia raiando, o sol esquentando e estalando a madeira logo cedo…

Quando voltam pra casa, as tias custam a perceber a ausência de Alice, mas logo estão sonhando com sua voz, calma, narrando o sono mal dormido, acompanhada de um enxame de vozes. A essência de uma casa não são suas paredes, fundações ou pisos encerados, mas quem a habita e já habitou, quem amou, odiou ou temeu e vibrou de prazer ali, dia após dia, uma noite de cada vez, na solidão de cada um. O apartamento aguarda. E narra.

***

P.S.: Nenhuma história termina realmente, não é, Romero? Algumas coisas, por mais que pensemos nelas como enterradas e esquecidas, não precisam de mais do que um simples incentivo para voltarem a vida, entende?

*Antes ficamos sabendo que ela é balconista numa papelaria perto da faculdade. Espero que seja minha única intervenção.

Silogismo de Flanar

Coragem não é ausência de medo, dizem as
Flores amarelas em muitas, grupo coeso,
Correndo eufóricas pela calçada,
Talvez atrás de transeuntes esquecidos por si mesmos.
Lúcidas: sem cair pra cá do meio-fio,
Dispersas, conectadas na desordem da minha estética – zona
Autônoma, corpo safado arrebentando as paredes da zona,
Agarrando na unha a cidade pra que todas possam
Pichar na face das outras o que não podem falar,
O que sei que não dizem,

O que sei.
Eu longe, eu rolando entre elas, cabeça-pés, sorriso, barriga.
Um sopro provisório no véu
Faz desabalar as flores.
Que vento é esse
É o fluxo
Intensidade que faz passar mal do estômago, marielles nascendo em time-lapse,
A irrealidade das leis.
Beleza é meio como espanto por tudo

Ser literalmente tudo.
Não exclui transeuntes esquisitos nem a pia encardida do banheiro.
A música é a mesma, abarca todos os cantos do mundo, mas cada um segue o seu tambor.
O seu, com a membrana infectada, comporta segurando traumas e atentados,
Doente de linguagem, Síndrome de Barthes,
Suspeita que ausência de medo é lucidez em estado radical.

foto: Laura Mayumi @mayuminasruas

Primeira Visita

fotocolagem de Jorge de Lima

Estive a cata de certas respostas por um longo período de minha vida. Trombei com as mais interessantes pessoas nos mais decadentes lugares. Sonhei com cidades de prata enquanto tilintava sob o frio mais azul.

De minhas andanças, coletei casos interessantes. Desde o homem que, sufocado pela fumaça do charuto, teve a alma inadvertidamente sugada pelo filho que lhe socorria num boca a boca, até viúvas que cerziam em sangue e pus as pálpebras marcadas de seus recém bem-encomendados maridos.

Fui, no entanto, uma apaixonada por situações ordinárias.

Meu primeiro contato com Zacarias foi numa rua qualquer de Tanger. Notei-o à distância, destacando-se entre mantas, toucas e camisas fechadas até o pescoço. Com o calor penetrando-me até a alma, pus-me a seu lado e, de súbito, acabei numa longa fila. Como que hipnotizados, milhares de fiéis caminhavam sob o sol, mal alimentados, sempre acesos. Contagiei-me naquela força massiva, deixei-me levar naquela onda de fé, não só por curiosidade, mas por sentir-me há muito em constante estado de possessão. Embora o dia estivesse magnífico, subiam as escadas mais íngremes, corriam sem se cansar, moviam-se como uma enorme onda. Sempre, com Zacarias a meu lado. E eu, eu não ia nem alegre nem triste, ia com meu casaco azul sob o braço, presente de uma amiga, que anos depois se perdeu, esquecido para sempre num metrô em Londres.

Ao cabo do que poderiam ter sido dias ou horas, Zacarias tomou-me pelo braço e, olhando pela primeira vez para mim, disse-me que era aquele o momento em que deveríamos sair da fila. Dali em diante, construiríamos nosso próprio caminho.

– Que é pela esquerda –, disse, antes de sair correndo, rindo.

O segui por alguns metros, até que parou diante de uma porta. Sentindo sede, fome e dificuldade para respirar, parei a seu lado e esperei. Após alguns instantes, ele bateu palmas e uma chave voou pela janela acima da porta e quase que me acerta a cabeça.

– Sê bem-vinda a meu lar.

O lugar, timidamente decorado, continha apenas um exagero: fotografias. Dezenas delas, espalhadas pelas paredes, amontoadas, sujas e velhas, confundidas pelo tempo, sobrepostas por outras, tão sujas quanto. Zacarias, que nesse momento, ainda nem havia se apresentado, conduziu-me até um cômodo nos fundos – e eu esperava encontrar quem lhe havia jogado a chave momentos antes.

Acompanhando Zacarias até seu quarto dos fundos, percebi que ainda me encontrava sob o efeito da multidão. Do contrário, jamais teria ido tão longe na companhia de um desconhecido. Logo percebi que ele me traía, buscava algo de mim. Talvez, até, mais do que eu buscava nele. E despedaça-me o coração, nesse momento, tanto tempo depois, imaginar que eu não poderia esperar ou buscar nada de alguém como Zacarias.

Chegamos em seu quarto, onde apenas um velho colchão resistia ao lado de uma estante improvisada. Ele então pegou um livro e mostrou-me certa página.

– Leia, por favor. Em voz alta.

Era um conto sinistro, onde, se estou bem certa, um garoto solitário domesticava avestruzes para seu bel-prazer, comendo-lhes os ovos e cegando-os em sacos escuros até que fossem tão dóceis e frágeis quanto galinhas num galinheiro. Por fim, os amáveis pássaros o mataram num bem esquematizado plano de vingança cujo desenrolar fiquei sem saber, pois Zacarias fechou-me o livro ainda nas mãos.

– Muito obrigado. Amanhã, outro virá para ler a próxima página. E eu me esquecerei completamente de você.

Querubim Junto aos Portões

Ou talvez ao menos até que surja uma alça, uma placa, uma porta de entrada, algum tipo de sinalização que te diga o que fazer. Sem isso, você apenas orbita as bordas do texto, contemplando, entre perplexo e entediado, suas múltiplas rotações, como uma espada de fogo girando junto aos portões do jardim, dilacerado entre a tentação de virar-lhe as costas de vez, porque a vida é curta, e a esperança de que na próxima volta, quem sabe, alguma coisa vai se revelar e você finalmente compreenda do que está se falando.

Mas aí é que está o x da equação, a encruzilhada que não se abre.

Fala-se, não resta a menor dúvida, fala-se muito até, e em muitas línguas, consoantes e dissonantes, fala-se aparentemente de tudo e até de mais um pouco, mas isso não quer dizer que se quer dizer alguma coisa, não no sentido de um Saussurre bem comportado, adequadamente adestrado para buscar a origem das maneiras à mesa, com um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar, a cada significante, um significado, pareados nesse yab-yum tântrico que é o signo, linguístico ou não.

Adequadamente castrado, porque Freud.

É esse o álibi, a crença e mais do que crença, a fé linguística que sustenta o álibi. O de que alguém fala, e se fala, é para dizer algo. Alguém, eu, o autor, essa falácia que fala, e que é falácia por se supor sob a fala. Porque, se alguém fala, fala com um propósito, e que outro propósito haveria no falar, senão o de comunicar? Não é para isso que servem as palavras, não foi para isso que os sumérios inventaram o cuneiforme, para manter registros comerciais, o comercial e o comunicante cognatos, a fim de que o proto-capitalista primevo possa ser informado de quanto ganhou, quanto perdeu, quanto tem estocado no silo?

Adequadamente castrada, a linguagem, porque adequadamente adestrada.

Os limites do meu mundo, dizia Wittgenstein, e esse dizia porque tinha a dizer, são os limites da minha linguagem. A linguagem que falo, a única linguagem que entendo (e que em consequência, etimologicamente me en-tende), constitui as paredes da prisão que é o meu mundo, a realidade que confina minha consciência aos corredores linguísticos que lhe é permitido assombrar como um fantasma, invisível a si mesmo, mas arrastando e arrastado por essas correntes feitas das palavras encadeadas que definem minha ausência de mim mesmo, que só dão a ver o que me mostram, e não me mostram tudo, não me mostram muito, não me mostram nada.

Sobretudo, não me mostram o nada.

Escamotear o nada, afinal, é não apenas o propósito, mas principalmente a essência das palavras, cada qual a reificação dessa ausência de que se furtam a dar testemunho, a letra mesma não sendo mais que a positivação de um vazio, zero e um, agora você vê, agora você não. E ao não ver, você acredita mesmo nesse mundo, nessa miragem que a linguagem re-vela, e que faz tua consciência res-valar, ao mesmo tempo que se interpõe entre você e a realidade, de modo a nunca te deixar perceber que essa realidade que lhe é aparentemente mostrada não está lá de verdade, a não ser como sombra projetada pela linguagem.

É por isso que determinado Cortázar declarou certa vez que o escritor é inimigo da linguagem, que o escritor deve buscar explodir a linguagem, o túnel da linguagem, e com ele, explodir o que a linguagem fala, e com a fala, explodir a miragem de mundo, o túnel de realidade que a linguagem constrói enquanto te distrai.

Não para que, das cinzas do mundo, emerja um outro, ao bater das asas de uma fênix linguística renascida de suas próprias chamas não-xamânicas. Mas para que, com o decantar das cinzas e o apagar das chamas, nos intervalos de seu silêncio, se deixe entrever o real que a linguagem não comunica.

O único real que merece esse nome, precisamente porque o nome não lhe cabe.

O real é o i-mundo. O que não está, nem nunca estará, em mundo algum.

O que não quer dizer que os mundos todos não estejam nele.

Todos Somos Robôs do Século XVIII

Eduardo Regis

Fomos moldados em fôrmas de tempos passados e a nossa programação está gravada em discos obsoletos. Precisamos admitir que o mundo muda rápido, mas que nem tão célere assim é a mudança da ordem das coisas. Viver está cobrando um preço alto: nossa experiência legítima da vida.

Atenção, alunos. É hora da aula. A sineta tocou. Todos em silêncio. Olho no quadro que lá vem giz cuspido. Pra que serve isso? Pra te fazer pensar melhor. Seja também você um exemplar irretocável do cidadão que só apreende o que pode tocar e sentir com as mãos e com os olhos que vieram do “macaco”. Não, não vieram do macaco. Foi de um ancestral comum. Leia seu Darwin melhor.

Ontem acordei pensativo. Quis sentar e escrever alguma coisa, mas o horário não me deixou. De nove as dezenove no escritório. Oito horinhas pra dormir. 24 dividido por três dá 8. Uma parte pra descansar, outra pra trabalhar (mentira!) e outra parte pra ir pro trabalho e se arrumar pra ele.

Ora, ora, o que temos aqui? Um subversivo safado falando bobagens. É doutrinação Marxista que começou com Moisés (Não é coincidência que Marx e Moisés comecem com M, gente) quando abriu o Mar Vermelho. O MAR VERMELHO!

Você pensa com seu cérebro do ancestral comum com o macaco. O lado macaco do ancestral em comum quer pular de galho em galho e comer pitangas enquanto grita contra o vento e sente a liberdade da existência, mas o lado humano sabe que o que dignifica o homem é o trabalho e o estudo e que se há uma máquina para medir, provar e atestar, então tudo é verdade. Você sente com sua alma que você sabe que não existe, mas fala dela assim mesmo. Coisa estranha essa de figura de linguagem. Deus o perdoe por isso, mas Deus é uma ilusão, já dizia o cientista. Cientista quando fala, a gente escuta. Nossa alma quando fala, a gente finge tá doido e toma umas pílulas. Remédio pra dor de cabeça é todo dia. Todo dia é dia de boleto na terra dos autômatos Fordistas.

Hoje no trabalho eu fiz de novo tudo que não gosto. Mas o dinheiro é bom e eu preciso dele. Amanhã eu sentei no banco da praça olhando as moças passar. Eu gosto de moças que passam falando alto. Gosto de saber das novidades. Aprendi desde cedo que fofoca é coisa feia, mas o macaco quer banana e o macaco é um dos animais mais sociais que existem. Deixa só as abelhas saberem disso, vai ter briga na floresta.

A partícula de Deus foi um tal de Higgs que teorizou pensando em números e teoremas. Dizem que Deus é matemática. Você sabe que é ruim em matemática e isso é uma vergonha. Então você é ruim em Deus e não vai à Igreja por isso. Afinal, se dois mais dois igual a quatro por qual razão Deus é três?

O ovo faz mal à saúde. Na verdade, faz bem, diz outro estudo. Os dados não conversam entre si. Tudo é tão subdividido que nada representa o todo. Se uma célula explode aqui, a outra não quer nem saber de lá. Um microscópio pega uma se divertindo, mas do lado já tem outra na repressão. O que dizer do que é tão complexo quando nossas ferramentas são tão reducionistas?

Atenção, vamos ouvir Renato Russo quando ele diz que “Somos os filhos da revolução”. Ele só se esqueceu de complementar. “Revolução Industrial”. “Revolução Científica”.

Você já tentou viver sua vida de verdade? Não tô perguntando se você já viveu sua vida de verdade. Isso é difícil para caramba. Tô perguntando se você já tentou viver sua vida de verdade. Já tentou ignorar o que te dizem os outros? E daí que já tá provado que os dinossauros tão extintos? Se você quiser então ter um amigo dinossauro você não pode? Claro que pode, cacete! Sempre quis ser um duende? Compra a porra de um chapeuzinho vermelho e sai comendo maçãs por aí. Ou qualquer outra coisa que você ache que um duende faz. Ah, mas isso não é legal não. Vão me chamar de maluco, você pensa e eu leio (sou um telepata, tipo o Professor Xavier, irmão do Chico Xavier).

Maluco.

Você acorda, trabalha e dorme de novo e com sorte deu tempo de ler um gibi do Tio Patinhas no meio. Você lê o que disse o professor de Harvard e concorda com ele sem entender nada. O Biroliro faz arminha e você faz também, pois ele veio pra limpar a sujeirada e todo mundo que já viu um bang bang sabe que só se coloca uma cidade nos eixos com um cartaz de procurado, uma recompensa gorda e um revólver Colt na mão. Teu filho nem te vê. Você meteu ele naquele colégio do Santo Qualquer coisa. Lá eles vão ensinar ele a se comportar usando um Deus que o Dawkins falou que não existe e você acreditou, mas e daí? Na dúvida você reza de vez em quando e teu filho tá lá ajoelhando no milho pra passar no ENEM e quando ele se formar cirurgião de cérebros atrofiados pela biroliragem geral e irrestrita promovida ele vai te ver morrer e correr pra jogar teu cadáver quente ainda no buraco. Bola pra frente. É a vida. Reza uma missa pra fingir que tá tudo bem.

Maluco.

Raulzito profetizou que melhor é ser um “Maluco Beleza” do que um robô Europeu modelo Século XVIII com cabecinha de Século XIX. Desaperta os parafusos. Vai. Desaperta.

Por que escrever é importante?

Sto. Braz de Ávila

No final do séc. XX a Folha de San Pablo convidou escritores, colaboradores, amigos, conhecidos, parentes e animais de estimação a responderem a pergunta aí em cima. Em meados do último ano um colega perguntou – e contexto aqui não importa ou importa em demasia – algo similar para mim. Por que escrever me é necessário? Por que desejo retomar esse hábito?

Eu não fui uma criança/adolescente orientada pelo código verbal-escrito. Era muito mais visual, fã de artes em geral e quadrinhos em particular. Gostava de ler, mas priorizava textos híbridos, que combinam elementos de várias linguagens.

Depois dos 18 isso mudou um pouco. Stephen King surgiu no meu horizonte de leituras graças às edições de banca de suas histórias. Um dos pontos de maior atração nos livros de King são os extras. Olha só: pela primeira vez em minha carreira de consumidor de textos deparei com um escritor que se dirigia, em tom de conversa, a seu leitor e contava a ele sobre seu ofício.

Às vezes esses textos pareciam justificativas, desculpas pela escolha de temas e sub-gêneros, e argumentavam quanto à necessidade do horror (na ficção, como forma de catarse) na vida da população. Em outras, eram ensaios sobre as estratégias de uso da língua escrita por King, de onde vinham suas ideias e assim por diante.

King usou recursos similares aos empregados por Stan Lee no momento de maior visibilidade da, arrã, “Casa das ideias”. Abriu um diálogo com o leitor e entregou a ele as chaves do reino. O autor ofereceu a literatura de horror/gótica à classe trabalhadora. Seus protagonistas, mesmo quando são homens de letras, professores etc, têm a mesma origem do autor e diferem bastante dos cientistas loucos e monstros da nobreza ancestral que percorriam as narrativas de horror não muito tempo antes.

Stephen (ou Steve, como o chamam seus amigos) me fez pensar que escrever, de repente, podia não ser algo tão absurdamente difícil, como quase todo mundo queria fazer crer… inclusive professoras de priscas eras. Também alinhava seu pensamento ao meu com relação à necessidade de horror (e, por que não falar disso?, fantasia, romance, mistério e toda a gama de maravilhas que a literatura pode revelar) na vida das pessoas. Não que a escolha de temas e gêneros fosse essencial, mas o modo como escrevia (tá, ainda escreve) servia como exemplo positivo. Ele é o cara do “how to do it”, o primeiro.

Charles Bukowski (ou Henry Chinasky, depende da inclinação) veio a mim primeiro via quadrinhos, no traço “Moebius anabolizado” de Mathias Schultheiss). Essa 1ª aproximação, no entanto, não me engajou na exploração do trabalho do Velho Safado.

Foi na 2ª vez que engoli isca, anzol e linha. 1º ano de Letras. “Factotum” recém garimpado num sebo embaixo do braço, cheguei para a aula e precisei do favor (seria melhor dizer “serviço”, já que houve um preço) de uma colega do 2º ano que pediu em troca o que estava visível em minhas mãos. A felicidade que a menina demonstrou ao receber o livro foi a fagulha que faltava para a ignição de meu interesse por Bukowski.

O que me chamou atenção no texto do sujeito foi a capacidade de fazer com que seu ofício, sua atividade, pareça simples. Em diversos relatos (você descobrirá que a produção de Bukowski é de difícil classificação) é possível observar como ele sugere ao leitor de que só precisa abrir uma lata de cerveja para começar a escrever um texto novo… 

Hank mistura gêneros como ninguém e faz seu leitor crer que todas suas narrativas são relatos fidedignos de experiências pessoais. Fui a uma (de um punhado que ainda sobrevive na city) livraria noutro dia, girei o expositor de livros de bolso e encontrei essa coletânea de prosa inédita (em livro, segundo o organizador) do Velho Safado. Esse 3º encontro é o que nos traz aqui, a este momento preciso, a esta palavra, a este ponto em que repito por escrito o que disse ao funcionário que me atendeu na ocasião. Rapaz esforçado, focou a conversação de poucos minutos em um tema que parecia dominar: Bukowski só escrevia sobre sua própria experiência de vida. Sugeri a ele a leitura da bio do Charles, pois seria mais acurada que seus relatos, o que lhe daria uma ideia de quanto o objeto de nossa discussão subvertia os fatos desde que isso valorizasse qualquer texto que escrevesse.

Junto com King, Bukowski aproxima o leitor do processo, do ofício. Rompe as classes sociais que determinam os papéis de cada um e destrói a fronteira de gêneros textuais com seu projeto metalinguístico em que é personagem de si mesmo e parece sempre em construção.

King e Bukowski, apesar de escreverem de modo intencional, conscientemente, apertam botões instintivos em seus leitores, criam simulacros de “luta/fuga” ou de hedonismo, busca do prazer puro, humor fácil… oferecem catarse, recompensa. Mas também despertam – ou podem despertar, graças ao uso irrestrito da própria escrita como tema – o interesse do leitor pelo funcionamento dessa ferramenta, desse mecanismo.

“Como é possível produzir esse efeito?” “Quais são os recursos, os truques, o que é preciso fazer?” “Só é possível escrever sobre aquilo que se experimenta?”

Esses caras ofereceram a mim meios essenciais de que tomei posse com gosto. Disseram que era possível escrever mesmo que essa não fosse uma inclinação natural e que, apesar de ser originário da classe trabalhadora, nada me impedia de fazer uso deles. Estão em meu DNA tanto quanto meu pai, supremo contador de histórias (e piadas) de minha infância, e a necessidade de escrever é mais do que um instinto para a linguagem, é um modo de articular, de organizar o pensamento, mesmo que esse seja visceral e esteja longe da razão. 

Escrever é importante por ser uma ação influenciada pelo modo como seu ator se sente no momento em que a realiza; além disso, o que quem escreve sentirá a seguir será afetado pela ação de escrever no agora. Sentir e agir = retroalimentação mas também senciência. (trecho surrupiado e parafraseado de OUTRAS MENTES, de Peter Godfrey-Smith). Parece contraditório, mas ação e sentimento que levam a escrita fazem parte do sistema 1, aquela reação heurística a um estímulo qualquer (uma menina de pés descalços, dentro de um vestidinho curto na biblioteca da faculdade, por exemplo, originou meu primeiro texto)… ação e sensação. A partir do momento que se toma consciência da própria escrita como algo passível de intervenção, “alterável por mãos humanas”, entra-se no sistema 2, o que Teilhard de Chardin chamaria de Logosfera, o ápice em que a razão prevalece. Escrever é, portanto, uma ferramenta do pensamento, da racionalidade e ultrapassa os limites da senciência, limpa a lama das águas, permite uma visão mais clara, dá de presente a quem escreve a consciência. Garante o distanciamento necessário. Ajuda a materializar e reduzir problemas que parecem ciclópicos.

Se tem uma coisa de que preciso no dia a dia, é ser racional.

GÊNESIS POR ROBERT CRUMB

Robert Crumb é conhecido por seus quadrinhos ora confessionais, ora com um apelo político mais explícito, mas sempre com os dois pés mergulhados na contracultura. Seja como próprio personagem, seja como figuras marcante como Fritz, The Cat, a última coisa que alguém poderia esperar é que Crumb surpreendesse o mundo com a publicação da uma adaptação em quadrinhos do livro do Gênesis.

No entanto, o que o público descobriu foi uma obra verdadeiramente autoral, mesmo reproduzindo ipsis litteris o texto do primeiro livro da Bíblia. Não se trata de simplesmente fazer as ilustrações do que é descrito no chamado Livro Sagrado, mas há uma escolha consciente do artista, que sabia muito bem o que queria em cada uma das páginas desenhadas.

O que a torna autoral é justamente ressaltar as contradições entre a doutrina religiosa e o que é descrito no livro, o que fica marcado justamente pelo fato de se manter o texto inalterado. Temos estupros, assassinatos, incesto, e tudo isto está lá, na fonte original. Ao explicitar nos desenhos o que ocorre na narrativa, Crumb desnuda os preconceitos reforçados pelas instituições religiosas. Todas as proibições morais e sexuais são praticadas pelos personagens, muitas vezes sem o menor pudor.

Os representantes das igrejas tomam para si o papel de árbitros do que pode ou não ser praticado, e condenam, baseado em justificativas morais, atos e ideias que contrariem o que eles determinam. A autoridade de suas decisões é supostamente a da fé, e a Bíblia é o texto que serve de base para seus discursos. Vem então Crumb e usa a própria Bíblia para expor a hipocrisia e arbitrariedade dos que a utilizam para destilar e reafirmar seus próprios preconceitos.

Lançada originalmente em 2009, de lá pra cá esse quadrinho só ganhou importância, uma vez que o discurso religioso cada vez mais foi se imiscuindo com o político. Movimentos conservadores mundo afora vêm reforçando a ideia de uma pureza civilizatória do mundo cristão, que precisa ser mantida, ainda que à força. O extremismo de direita e sua pregação de supremacia branca se reforçam dessa religiosidade de faixada para impor sua agenda política de exclusão e perseguição às minorias.

No caso brasileiro, o discurso religioso serve inclusive como base para a censura, como a tentativa de controle sobre quais obras devem ou não serem financiadas com dinheiro público. Parece que caminhamos para uma ANCINE Gospel, onde os sucessos de bilheteria com teor religioso podem inclusive serem suspeitos de servirem de meio de lavagem de dinheiro pelo crime organizado, mas isso parece ser mais aceitável do que simplesmente retratar a vida de uma pessoa trans ou homossexual.

É importante ressaltar que se trata de um movimento calculado do conservadorismo. A Cultura é um dos alvos preferenciais do ataque das forças conservadoras, pois é a partir dela que se molda os sonhos e visões de mundo da sociedade. Não foi à toa que a Contracultura ganhou o sufixo “contra”, a ideia era justamente a partir da arte criar novas mentalidades que rompessem com o velho padrão castrador e controlador da “velha” cultura. Crumb, que sempre esteve na linha de frente dessa batalha, tem plena consciência disso, e por isso sabe mirar com precisão nos alvos que devem ser alvejados.

Muitos se utilizam da Bíblia para, de maneira hipócrita, camuflarem seus próprios desejos mundanos. Crumb nos lembra que mesmo na Bíblia há toda uma sujeira e imoralidade intrínsecas. Um cristão mais fervoroso e sincero poderia até apontar que a vinda de Jesus seria justamente para nos livrar desses pecados. Mas o que a prática vem nos mostrando é que justamente quem diz atuar em nome Dele é quem mais age como os personagens bíblicos do Antigo Testamento.

Assim, o Gênesis de Robert Crumb é importante por desconstruir os argumentos religiosos com base no próprio texto bíblico. Desta forma, o autor diminui consideravelmente o espaço de crítica a sua visão das instituições religiosas, pois tudo o que está na hq também está na Bíblia.  Ao manter intactas as palavras do Gênesis, fica difícil para que alguém o ataque utilizando-se de argumentos de autoridade com base “na palavra sagrada”. Longe de ser uma excentricidade ou desvio, essa hq insere-se muito bem no contexto da obra do autor, e ainda nos dá a chave de que, considerando como agem certas pessoas que se dizem cristãs, é na própria Bíblia que podemos achar os fundamentos para expor sua hipocrisia.